Casa Tuga

Dinheiro para quê?

Posted on: 21 Julho 2008


Dizer que não há dinheiro para nada não é sério, nem é eficaz. E ninguém acredita

A oposição de Manuela Ferreira Leite aos casamentos homossexuais revela coragem política. Sabia que ia afrontar os novos polícias do politicamente correcto, quem sabe, perder votos, mas, sem fugir à questão – e podia tê-lo feito –, preferiu dizer o que pensa. É um bom sinal, concorde-se ou não com a posição de fundo. Um mau sinal é o resto. E o resto, fait divers fracturantes à parte, é o que realmente interessa.

Afinal, que esperanças tem a oferecer ao País um candidato a primeiro-ministro que começa por dizer que «não há dinheiro para nada»? Que mobilização consegue junto dos seus concidadãos? Com que objectivos aceita comprometer-se? Ponham-se as questões à líder do PSD, só para começo de conversa. Pergunte-se-lhe, antes de se votar nela, se tem uma fórmula para arranjar dinheiro para alguma coisa. Indague-se sobre, sendo a realidade como ela diz que é, o que está ali a fazer e porque não desiste já.

Dollar

A declaração de impotência subjacente ao que alguns já chamam a «tese da tanga» é um mau começo. Com este discurso-choque, Manuela Ferreira Leite pretende reforçar a imagem da mulher que fala verdade. Com o pequeno pormenor de que o que diz não é verdade. É que o País tem dinheiro, tem sempre dinheiro para alguma coisa.
O problema não é não haver dinheiro. O problema é como gastá-lo. E, em tempo de crise, como gastá-lo ainda mais criteriosamente. Manuela Ferreira Leite ganharia mais em dizer onde pretende gastar o dinheiro de que o País dispõe, por via da crescente receita dos impostos ou pela aplicação do QREN. Mais, como pretende ajudar a Classe Média – com a qual todos os dias enche a boca – se não é partidária da descida de impostos e se «não há dinheiro para nada». Ora, é pelo seu esclarecimento sobre onde apostaria os recursos disponíveis, que a podemos comparar com Sócrates. Dizer que não há dinheiro para nada não é sério, nem é eficaz. E ninguém acredita.

Cito, a propósito, um semianónimo autor francês: «Vós ireis viajando por Portugal e, num país tão fértil, e tão reduzido, admirareis vastas charnecas, vales, ribeiras e várzeas incultas, cheias de mato. Vereis terras as mais aptas para searas, bosques, vinhas, olivais estarem quase a gritar por uma mão benéfica que venha tirá-las daquele vergonhoso ócio. Vereis noutras partes quase sempre errada a escolha das plantações, ou sementeiras. A vinha onde devia estar o olival. A seara onde devia estar a vinha.

Olival

O olival onde devia estar a seara. Os olivais mal plantados, mal escolhidas as castas das vinhas (…)». Este texto foi escrito nos anos 80… do século XVIII (in Cartas de um viajante francês, do Centro de Estudos de Letras da Universidade de Trás-os-Montes, UTAD). Por estranho que pareça, ainda não tínhamos entrado na UE nem ouvíramos falar da PAC. E os agricultores ainda não se passeavam nos seus tractores pagos com fundos europeus a reclamarem gasóleo mais barato. Mas talvez um novo viajante ainda venha dizer-nos que, andando pelo País, veremos sempre errada a escolha dos investimentos e da aplicação dos recursos: o TGV onde devia estar a Educação. Os estádios onde devia estar a Saúde. As novas auto-estradas onde devia estar a Justiça. Palpita-me, porém, que esse viajante não será ainda Manuela Ferreira Leite.

Fonte:Visão

1 Response to "Dinheiro para quê?"

Nem mais!

Abraço!

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