Casa Tuga

Inflação ou recessão?

Posted on: 8 Julho 2008


No estado em que as coisas estão, a economia agradecerá sempre esta redução do IVA. Mas ela resolverá alguma coisa?

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A taxa de inflação em Portugal é a segunda mais baixa da União Europeia, segundo os dados do Eurostat. Este não é um quadro que se veja todos os dias, embora o preço que estamos a pagar por essa honrosa posição esteja à vista de todos, nas crescentes dificuldades sentidas por famílias e empresas ou na revisão em forte baixa do crescimento económico para este ano.

Resultado claro da política governamental dos últimos tempos, quer no sentido da contenção orçamental quer no aperto da carga fiscal, e também da grande moderação salarial que tem vigorado nos sectores público e privado, Portugal vive com aumentos da inflação inferiores aos da média comunitária há já quase um ano, estando neste momento com um crescimento de preços na ordem dos 2,8% (dados de Maio), contra 4% registados no mês de Junho para o conjunto da Zona Euro.

Mas se o bom resultado no controlo da inflação é coisa rara entre nós, infelizmente o mesmo não se pode dizer quanto à má tendência que temos de andarmos sempre desalinhados dos outros. Desta vez, estamos a apanhar injustamente com aumentos sucessivos da taxa de juro, numa altura (inédita) em que nos encontramos no pequeno grupo dos melhores, dos que se estão a «portar bem» em termos de inflação.

E o que isso significa não é nada bom: quer dizer que ao quadro de dificuldades que já hoje sentimos em resultado das políticas de controlo das contas públicas perda de poder de compra, arrefecimento económico, fragilidade do mercado de trabalho e crescente endividamento (das famílias, das empresas e do País) teremos de acrescentar o descontrolo de preços na Zona Euro e, muito provavelmente, novo aumento das taxas de juro directoras do Banco Central Europeu, o remédio do costume para combater tendências inflacionistas.

O aumento das taxas de juro, do custo do dinheiro, seria a última coisa que nos interessaria neste momento, mas não agrada também a muitos outros parceiros comunitários, incluindo alguns com taxas de inflação mais altas, uma vez que já têm problemas de sobra com o flagelo do aumento de preços da energia e dos produtos alimentares e também com os fracos desempenhos das respectivas economias.

Central European Bank Banco Central Europeu

Tradicionalmente, o Banco Central Europeu é pouco sensível às dificuldades económicas conjunturais das famílias e empresas, pelo que seria natural que, nesta quinta-feira, 3, voltasse a decidir um novo aumento de taxas. Mas como estes são também dias bem diferentes do normal, com claros riscos de recessão na Europa e com os aumentos de preços a serem induzidos pelo exterior, é possível que os banqueiros centrais da Zona Euro decidam o contrário do que é costume, «engolindo» a intransigência doutrinária habitual e cedendo na primazia que normalmente dão à política monetária em prol do combate a uma séria ameaça de recessão.

No meio de tudo isto, no dia 1, a taxa de IVA de 21% regrediu para os 20%, entrando, assim, em vigor o bodo aos pobres anunciado por Sócrates em Março.

Uma decisão que tem apenas três meses, mas são três meses que «mudaram o mundo». Contendo duas «dúvidas originais», apontadas por inúmeros críticos a de saber se uma redução do IVA de tão fraca dimensão tem algum impacto e a de saber se algum dia os cidadãos sentirão, nas suas carteiras, o benefício dessa medida , a decisão de Sócrates implica hoje com uma terceira questão, mas esta sem possibilidade de resposta: será que o Governo teria avançado com esta redução do IVA se soubesse o que sabe hoje?

Muito provavelmente teria deixado as coisas como estavam, já que o crescimento económico desacelerou em relação ao que inicialmente se previa e é previsível que o Estado sinta um «arrefecimento» significativo nas receitas fiscais esperadas, dispensando, portanto, uma decisão que, somada ao mau desempenho da economia, poderá colocar em risco os objectivos referentes ao défice orçamental.

Mas, como diz o povo, há males que vêm por bem. A verdade é que o arrefecimento económico e a evolução dos preços em Portugal dispensavam as últimas subidas de taxas, pelo que esta redução do IVA chega em boa hora.

E embora seja um tema querido da discussão política e que leva os políticos às compras no supermercado, para «fiscalizarem» as oscilações de preços , para a economia é irrelevante se os seus efeitos chegam ou não a ter repercussão no consumidor. No estado em que as coisas estão, a economia agradecerá sempre a redução do IVA, já que o aparelho produtivo começa, de forma muito generalizada, a precisar desesperadamente de algum tipo de estímulo que compense os efeitos da crise. Mas alguém acredita que esta redução servirá para resolver alguma coisa?

 

Fonte:Visão

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