Casa Tuga

Terra: um planeta ameaçado

Posted on: 22 Abril 2008


O edifício Charlemagne, que hospedava o encontro da ONU sobre clima em Bruxelas, Bélgica, é um exemplo perfeito de efeito estufa. Feito com estrutura de metal e concreto e totalmente revestido de vidro, funciona como uma caixa de retenção de calor. Foi projectado para deixar a luz solar entrar através do vidro e guardar o calor dentro do prédio. É mais ou menos assim que funcionam os gases que causam o efeito estufa na atmosfera da Terra. Eles deixam passar a luz do Sol e seguram o calor que o planeta irradiaria de volta. O efeito estufa é, em princípio, benéfico, como as janelas do Edifício Charlemagne. Ele ajuda a manter o clima da Terra ameno. Mas o excesso de gases produzidos pelas actividades humanas desequilibrou a atmosfera. Os gases poluentes, como o metano e o gás carbónico, são produzidos pela queima de combustíveis fósseis e pelas queimadas florestais. Para reduzir o aquecimento, será necessário diminuir as emissões desses gases.

As consequências do efeito estufa começaram a ser debatidas (…) pelos principais cientistas que estudam mudanças climáticas no mundo. Eles reuniram-se no IPCC, painel convocado pela ONU para fazer as previsões dos impactos do aquecimento em cada região do globo. (…) Já se sabe que a temperatura média global vai subir alguns graus, até o fim do século. Agora, revelaram-se as consequências.

O relatório final do IPCC reúne os dados mais confiáveis de milhares de estudos revisados por 2.300 cientistas de 130 países. As suas páginas apresentam um quadro preocupante em todos os continentes. Os cumes gelados dos Andes podem desaparecer nas próximas duas décadas, prejudicando o abastecimento de cidades que dependem de água do degelo, como La Paz, na Bolívia, e reduzindo zonas de agricultura irrigada, como as vinícolas do Chile e da Argentina. Na África, a região do Sahel, já árida, pode perder de 5% a 8% de área cultivável. Os países mais populosos do mundo, China e Índia, podem ver a produção agrícola cair até 30%, mesmo investindo em mais irrigação. Uma elevação de 1 metro no nível do mar desabrigaria milhões de pessoas em regiões como os deltas dos rios Ganges, em Bangladesh, e Mekong, no Vietname.

“Nossa expectativa é que o relatório ressalte a importância de medidas para reduzir o ritmo do aquecimento e também lembre que já precisamos pensar em como vamos administrar as consequências inevitáveis de um planeta mais quente”, disse o indiano Rajendra Pachauri, director do IPCC.

O relatório também aponta algumas aparentes vantagens para os países mais frios. O calor pode acelerar o crescimento das árvores nas florestas dos Estados Unidos, do Canadá, da Nova Zelândia, Finlândia e Rússia e pode reduzir a mortalidade por doenças ligadas ao frio, como gripe e tuberculose. A Rússia e o Canadá s podem até ter maior área de florestas, com o recuo das zonas permanentemente congeladas, o permafrost. A Nova Zelândia pode ganhar novas terras disponíveis para agricultura e pecuária. Essas vantagens compensariam os traços negativos do efeito estufa? “Isso é um mito”, diz Pachauri. “Essa vantagem não existe, ela esconde outros problemas.” O calor aumenta a quantidade de doenças e pragas. A ruptura nos padrões de chuvas enfraquece a vegetação, adaptada a condições que predominaram por milhares de anos. Além disso, o derretimento do permafrost libera volumes imensos de metano, aprisionado no gelo nos últimos 40 mil anos. O gás é 20 vezes mais potente que o carbónico para aquecer a Terra. “Até agora, temos visto um aquecimento gradual. Se essa quantidade for para a atmosfera, o clima do planeta poderá mudar bruscamente”, afirma.

O relatório do IPCC parece ter sido feito para assustar. É o oposto. Seus prognósticos são conservadores. É assim porque, ao ponderar os estudos existentes, os pesquisadores descartam as linhas de pesquisa com volume insuficiente de evidências. Desde sua criação, há 15 anos, suas previsões erram quase sempre para menos. Por isso, o relatório é recebido com expectativa por governos e empresas. Nos últimos meses, ficou claro que ninguém pode ignorar as mudanças climáticas. A questão é o que faremos com esse relatório. O único acordo internacional para reduzir as emissões poluentes é o Protocolo de Kyoto, ratificado por alguns países poluidores, como os da União Europeia, o Canadá e o Japão, mas não pelo maior de todos, os Estados Unidos. Ele prevê a redução das emissões em 5%. O acordo será revisto em 2012. Esperam-se reduções mais drásticas. O Reino Unido está propondo até 60%. Isso é fundamental para orientar o sector privado. Mesmo que algumas empresas, como a GE e a Du Pont, anunciem metas voluntárias de redução nas emissões, poucos acreditam que o mercado mude sem limites estabelecidos pelos governos. Há um tom de urgência porque, como afirma Pachauri, não há muito tempo para esperar. Se os países com clima mais frio, como os do norte da Europa, se empolgarem com a ideia de uma duradoura primavera, o mundo todo poderá sair perdendo.

sun_earth

Fonte

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