Casa Tuga

O meu depósito é melhor do que o teu

Posted on: 22 Dezembro 2007


É o novo campo de batalha dos bancos portugueses. Com os juros em alta e a bolsa instável, as velhas aplicações a prazo renasceram e já se «esticam» até aos 10%. Saiba como passar de inimigo a aliado da Euribor e conheça as novas tendências do mercado.

Conhece a Euribor? Aquela taxa de juro ditatorial que, nos últimos dois anos, mais não fez que aumentar a prestação da casa? Pois bem, prepare-se para olhá-la com outros olhos. Este é o momento em que o malévolo inimigo se transforma em aliado. Como? Simples: quando a Euribor se transforma em estrela guia quando se trata de remunerar as suas poupanças? nos depósitos a prazo.

A «arma» a que os bancos recorrem quando lhe atribuem uma taxa de juro nos empréstimos é, agora, a mesma que o leitor deve esgrimir no momento em que lhes entrega a guarda das suas poupanças. E esta é, provavelmente, a forma mais justa de avaliar a taxa de juro proposta nos depósitos a prazo, uma forma de investimento moribunda, que, nos últimos dois meses, parece ter ganho nova vida. O exercício é simples. Basta inverter a lógica. Vejamos. Na hora de conceder empréstimos, os bancos servem-se da Euribor – a taxa de juro a que os 52 maiores bancos do sistema financeiro europeu emprestam dinheiro entre si – como referência e juntam-lhe mais um pedaço de juro, que corresponde à sua margem de lucro no negócio. Quando decidir constituir um depósito a prazo, faça o mesmo exercício, mas ao contrário e veja quanto é que lhe estão a oferecer abaixo da Euribor. É a lógica do spread invertida. O que lhe oferecem abaixo do indexante corresponde ao lucro que irão obter com o seu dinheiro, e quanto maior for o lucro do banco, menor será o seu.

E nos depósitos como nos créditos, o seu interesse é o mesmo: conseguir um spread tão baixo quanto possível. Ora, a verdade é que, nas últimas semanas, as condições têm melhorado.
A Pressão da net

Até porque há margem para que tal aconteça. A banca tradicional percebeu que a concorrência dos congéneres virtuais – os bancos online – estava a fazer-lhe mossa e que os consumidores já se tinham apercebido que podiam continuar fiéis ao seu banco de sempre e, ao mesmo tempo, conseguir maiores rendimentos para as suas poupanças na concorrência. Para estancar a sangria, a banca tradicional começa, agora, a mostrar-se mais agressiva, como comprovam as inúmeras campanhas publicitárias a oferecer juros nunca vistos.

A mais recente, que vai para o ar amanhã, é do maior banco privado português. O Millenniumbcp chamou o apresentador Jorge Gabriel para voltar a dar a cara pelo banco, nesta sua mais recente aposta: um depósito a prazo com taxa crescente até 10%, implicando uma permanência de 15 meses.

A bolsa, os juros…

Mas por que razão despertaram agora os bancos para os depósitos a prazo, quando o seu campo de batalha preferencial era, há muitos anos, o crédito para compra de casa? A instabilidade bolsista explica parte do fenómeno. Provoca desconfiança nos investidores, sobretudo nos pequenos aforradores, que saem do mercado de capitais, leia-se, da bolsa (directamente ou indirectamente, por via de fundos de investimento). Em Setembro foram resgatados mais de mil milhões de euros dos fundos. Seguindo uma tendência que já vinha de trás. Resultado: um dos fundos portugueses recorreu a um empréstimo bancário para compensar os abandonos. Carlos Tavares, presidente da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários, disse que tudo correu «dentro das margens normais», pois a legislação permite que, em caso de falta de liquidez, os fundos possam pedir um empréstimo até 10% do valor dos activos sob gestão, com um prazo máximo de 120 dias. Também o BPI foi obrigado a proceder à liquidação do fundo BPI Renda Trimestral. Pagou tudo aos subscritores e extinguiu a aplicação.

Ao sair da bolsa, é natural que os pequenos aforradores olhem para outro tipo de aplicações mais seguras. E, assim, tudo se conjuga para o ressurgimento dos velhos depósitos a prazo, empurrados pela cavalgada dos juros, que já dura há dois anos. Os bancos online, com estruturas de custos mais reduzidas que os seus congéneres tradicionais (quase não têm balcões, eliminando a cadeia de despesas a montante), já andavam a piscar o olho aos clientes há algum tempo: não cobram despesas de manutenção de contas, remuneram melhor os depósitos à ordem e têm propostas (quase) imbatíveis para as aplicações a prazo. Os gigantes tradicionais estão a ser obrigados a responder. Para «agarrar» os seus clientes e garantir dinheiro em caixa, que lhes começava a fugir entre os dedos, num momento de crise de liquidez. Afinal, conseguir dinheiro nos mercados financeiros – e os bancos também precisam de contrair empréstimos – é mais caro, pois os juros estão lá em cima, e mais difícil, com o aumento das cautelas na hora de emprestar, por causa da crise do crédito hipotecário nos EUA.

Para onde se viram os bancos? Para os seus clientes. «Os bancos foram muito agressivos na actividade de crédito, ao longo dos últimos anos e, agora, têm de equilibrar a sua estrutura de financiamento com os depósitos», explica Diogo Cunha, 37 anos, administrador do Banco BIG.

Como? Com juros tentadores. Mas, atenção: perceba, antes de embarcar nesta viagem, o que está a comprar – um depósito a prazo ou um depósito a prazo acoplado a um fundo de investimento? É que algumas das taxas mais apelativas, em especial aquelas que vão além dos 10%, não são um depósito a prazo puro. Contêm uma componente de risco, com rendimento variável que pode, ou não, enquadrar-se no seu perfil de investimento. São os casos de dois dos produtos mais agressivos que chegaram recentemente ao mercado.

Os depósitos a prazo dividem o protagonismo com os certificados de aforro. Estes juntam ao baixo risco uma taxa de juro cada vez mais apelativa. As novas subscrições, a partir de Outubro, serão remuneradas a 3,652%, um valor inédito nos últimos cinco anos. No final de Setembro, o número de aforradores ascendia já a 720 mil, invertendo a tendência de queda que se verificava desde o final de 2002.

… e o fim dos benefícios fiscais

O Deutsche Bank promete 10% num ano, mas apenas 25% do dinheiro aplicado fica como depósito a prazo. O restante é canalizado para três fundos de investimento. O Montepio também acena com 10%, mas apenas durante um mês. Passado o prazo, os juros vão para a conta à ordem e o dinheiro aplicado segue automaticamente para um fundo. Mas mesmo nos depósitos a prazo puros e duros tenha atenção às letras pequenas. É que as quase irresistíveis taxas duram pouco. São promoções, normalmente destinadas a captar novos clientes, que se esgotam ao fim de 30 dias. É o caso do Banco BIG, que remunera a 10% durante um mês, ou do Barclays, que oferece 8% pelo mesmo período. Depois, prepare-se para olhar para a sua aplicação na lógica do spread ao contrário. Porque é isso que vai acontecer. A remuneração estará sempre abaixo da Euribor.

Mas, em última análise, os depósitos a prazo ressuscitam «porque os clientes querem», como diz um responsável de um grande banco, e porque «os bancos necessitam», responde um investidor. E aqui, não é só o medo da instabilidade a jogar a favor da velha aplicação. «A conta poupança habitação deixou de ter benefício fiscal; os certificados de aforro mudaram a fórmula de cálculo; e o valor dedutível dos PPRE diminuiu. A forma mais segura de aplicar dinheiro convergiu, assim, para os depósitos a prazo», resume Diogo Cunha.

Há, porém, um factor óbvio: os juros estão a subir. E a convidar os investidores a sair da bolsa. «Neste momento, existem propostas extremamente aliciantes para quem tem dinheiro nas mãos. Se tal não acontecesse, as pessoas não estariam a retirar, de um forma tão determinada, o seu dinheiro de aplicações com maior risco», diz Manuel Alves Monteiro, ex-presidente da Bolsa de Lisboa. Os depósitos dão menos do que as acções, é verdade. Mas é igualmente verdadeiro que são incomparavelmente mais seguros.

E, assim, com esta conjugação de factores, os bancos portugueses tornam-se subitamente mais generosos. Promoções à parte, o facto é que a rendibilidade dos depósitos a prazo duplicou em apenas dois anos. E ainda há margem para subir mais, pois a banca nacional continua a pagar menos por este tipo de produto do que a média dos seus congéneres da Zona Euro.
Importa, agora, perceber se a guerra dos depósitos a prazo é para continuar. Diogo Cunha acredita que sim. «Quando o consumidor passa a ter a percepção do valor do seu dinheiro, é muito difícil fazer o inverso, ou seja, remunerar mal. Aqueles bancos que tinham a sua estrutura de rendimentos assente nos depósitos mal pagos, provavelmente vão tentar atrasar, mas os consumidores não deixarão que isso aconteça.» É um caminho, aparentemente, sem retorno.

Fonte: Visão

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