Casa Tuga

Um abraço para a ASAE

Posted on: 6 Novembro 2007


Sou um grande fã da Autoridade de Segurança Alimentar e Económica.

Sou um grande fã da Autoridade de Segurança Alimentar e Económica. Devo ser o único no País – facto que é, para mim, bizarro. E, no entanto, a ASAE não recolhe senão antipatia. A ASAE chateia os grandes, o que é desrespeitoso, e mete-se com os pequenos, o que é desproporcionado; encerra coisas, o que transtorna, e fiscaliza outras coisas, o que irrita. Sobretudo, a ASAE verifica se a lei está a ser cumprida – o que, para a grande maioria dos portugueses, é intolerável.

Aqui há tempos, as brigadas da ASAE fiscalizaram os vendedores ambulantes de bolas de Berlim na praia. O que se suspirou, por essa imprensa fora, pelos vendedores ambulantes de bolas de Berlim na praia. «Ah, os vendedores ambulantes de bolas de Berlim da minha infância!…», disseram uns. «Eu nunca adoeci por ter comido uma bola de Berlim na praia!», protestaram outros. «Coitado do sr. Armindo, que era o vendedor de bolas de Berlim da minha infância, e com cujos bolos nunca adoeci!», lamentaram outros, resumindo tudo, ainda que de forma cabotina. A ASAE andava a perseguir esta gente benigna que era capaz de povoar infâncias sem – o que era notável – transmitir doenças. Certo cronista chegou a enumerar as condições extravagantes que a ASAE impunha aos desgraçados que quisessem vender bolas de Berlim no areal. Não sei se o leitor está preparado para conhecer os caprichos que esta PIDE dos comes e bebes pretendia que os vendedores ambulantes satisfizessem. Preparado ou não, aqui vão eles: uma geleira e uma pinça. Digo outra vez, que a lista é extensa: uma geleira e uma pinça. Recapitulando: uma geleira e uma pinça. Os picuinhas da ASAE acham que as bolas de Berlim, uma vez que têm creme, no pino do Verão devem andar guardadas em sítios frescos. E ousam proibir o vendedor de lhes mexer com a mão. Pretende-se evitar o «pernicioso contacto da mão humana», ironizou um cronista que, por acaso, parece ser especialmente avesso ao contacto de qualquer parte do corpo humano alheio. Para azar da ASAE, há dias em que um cronista se sente menos misantropo. Pessoalmente, não tenho nada contra o contacto da mão humana lavada. Mas a mão humana que trabalha ao sol, provavelmente sua e mexe em dinheiro, se ela puder evitar mexer nas coisas que eu vou comer, eu agradeço à mão humana. Não tenho nada contra o sr. Armindo, mas acredito sinceramente que ele pode ser recordado com a mesma saudade se não for um badalhoco.

Na semana passada, a ASAE foi fiscalizar as cozinhas das cantinas de alguns hospitais. Tendo verificado que não possuíam as condições de higiene exigidas na lei, teve a desfaçatez de encerrar a do Hospital D. Estefânia e a do Hospital Santa Maria. Até agora, ainda nenhum cronista suspirou pelas cantinas hospitalares («Ah, as cantinas hospitalares da minha infância!», «Nunca adoeci por ter comido numa cantina hospitalar!», «Coitado do sr. Armindo, que era o cozinheiro da cantina hospitalar da minha infância, e com cujas refeições desenxabidas nunca adoeci»), mas vou continuar à espera. Há-de haver alguém com nostalgia das cantinas, que diabo.

Por:Ricardo Araújo Pereira
Fonte:Visão

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